Moe’s Lucid Dreams
Sonhos lúcidos com uma trilha sonora incrível…

Olhar de Artista

Março 6th, 2009 de Moe
Outro dia, eu postei aqui no blog e acabei citando um guitarrista chamado Jason Becker. Claro que fiquei devendo um artigo sobre ele.

Jason Becker

Becker é o tipo de guitarrista que você iria querer numa banda. Dotado de uma destreza invejável, também com a sensibilidade artística necessária para transformar nossas acrobacias em músicas. Seguia bastante suas influências de música clássica, como outros guitarristas de sua geração, mas conseguia abordar nuances bem diferentes com o instrumento, para fazer coisas mais jocosas como o disco A Little Ain’t Enough, de David Lee Roth. Mas vamos partir mais ou menos do começo da história.

O pequeno Jason recebia muitos elogios quando tocava, até um dia que recebeu uma crítica muito severa de seu pai, até onde sei sobre uma música do Bob Dylan que ele estava tocando. Recebendo desaprovação, seu pai reiterou a crítica, dizendo que se todos o elogiassem, ele nunca evoluiria. Jason decidiu aproveitar bem o papo e dedicar-se ainda mais ao aprendizado.

Anos depois, ele esteve em uma banda cult no cenário do heavy metal, chamada Cacophony, com o também estupendo guitarrista Marty Friedman. Os dois eram o centro das atenções da banda e também grandes amigos. Faziam duetos impossíveis com suas guitarras e, ao vivo, a performance pegava fogo, inclusive com uma “gracinha” que Becker fazia, tocando somente em legato com a mão esquerda, enquanto brincava com um ioiô com a direita. Na internet, é possível encontrar alguns vídeos dele tocando Paganini, que fazia o diabo com o violino, o que fica ainda mais complicado de tocar na guitarra - já que não foram compostas para esse instrumento.

Havia também a carreira solo. O ótimo debut, Perpetual Burn, mostra muito bem tudo isso que estou falando. É uma música com muita energia, técnica e elaboração. Pode haver quem não goste, mas a habilidade dele é inegável. Esse tipo de trabalho chamou a atenção de David Lee Roth. Para quem não se lembra, ele foi o primeiro vocalista do Van Halen e nem vou enumerar os hits que a banda emplacou nesse período. Após sair do Van Halen, ele decidiu seguir em carreira solo, e o guitarrista da sua banda era ninguém menos que Steve Vai. E era esse posto que Becker estava assumindo, no início dos anos 90, com 20 anos de idade.

Esse tipo de coisa é o sonho de muito guitarrista. Claro que você quer ter liberdade total para fazer a sua música, mas tocar com alguém que tem um baita nome e que, provavelmente, foi um dos seus ídolos de infância, é algo que pode te dar muita exposição, além de grana, diversão, e o prazer de trabalhar com esses caras. Enfim, é muito bom. E era nesse barco que ele tinha conseguido entrar.

O que acontece é que, quando estavam selecionando membros para a banda e gravando o disco, ele começou a ter fortes dores nas mãos e pernas. Durante os ensaios, ele tocou sentando, pois, com o passar do tempo, não conseguia mais ficar de pé, por causa das dores. Conseguiu, com muito esforço, terminar as gravações, mas saiu da banda, porque não conseguiria fazer a turnê. Em breve, suas mãos também pararam de responder, e foi sendo assim com o corpo todo, até que a única coisa que ele conseguisse mexer fossem os olhos.

Os pais cuidaram dele. Aprenderam a se comunicar por um sistema que o pai desenvolveu, envolvendo piscadas e movimentos em quatro cantos imaginários nos olhos. De cama, voltou-se também para a espiritualidade, mas não abandonou sua música. Continuou compondo. Algumas das músicas que ele compôs nesse estado podem ser ouvidas no álbum Perspective, interpretadas por diversos músicos renomados. Houve, inclusive, um espetáculo de dança que foi montado sobre uma peça de Becker.

O nome da doença é Esclerose Lateral Amiotrófica, ou Doença de Lou Gehrig. Essa doença atrofia praticamente todos os músculos do corpo, impossibilitando a pessoa de se movimentar, mas não afetando a consciência e faculdades mentais. Ainda hoje, ele é vivo (embora eu já tenha lido o contrário em revistas “especializadas”) e trabalha dessa forma. Com o apoio dos pais, amigos e fãs, continua vivendo, fazendo sua música. E tem esperanças de melhorar. Milagre? Pode ser. Mas eu tenho certeza de que é muito mais fácil acontecer um se você acreditar.

“The Fragile Art of Existence is kept alive by sheer persistence.”
Chuck Schuldiner

Moe.

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2 respostas

  1. lennon fernandes

    amigo moe

    belo texto
    trabalho muito importante;

    estamos aí no barulho
    até breve

  2. Moe’s Lucid Dreams » Blog Archive » Marty Friedman - Music For Speeding

    […] Marty Friedman - Music For Speeding Março 8th, 2009 de Moe Marty Friedman é um guitarrista de competência inquestionável, ao meu modo de ver. Executou de forma brilhante seus trabalhos nos anos de Megadeth, ao lado do exigente Dave Mustaine, participando de diversos dos maiores clássicos da banda. Antes disso, além de CD solo, tinha lançado outros álbuns com sua banda Cacophony, ao lado do também extraordinário e já citado Jason Becker. […]

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