O Mundo Precisa de Um Herói
É um tanto comum as pessoas citarem O Príncipe, famoso livro de Maquiavel, como um dos favoritos. O difícil é ver alguém realmente aplicando os conceitos e fazendo funcionar, comprovando mais uma vez as práticas recomendadas no livro. Eu vejo esse livro como um dossiê sobre o comportamento humano, conhecimento imprescindível para quem quer exercer qualquer posição de liderança. Pessoalmente, acredito que conhecimento e postura fazem um líder…e foram essas coisas que fizeram Dave Mustaine e grande parte da história do trash metal.
Para quem não conhece a história, vou resumir. Mustaine era guitarrista do Metallica, antes de gravarem Kill’em All, seu primeiro disco. Há algumas músicas no catálogo do Metallica de co-autoria do Mustaine, mas na época ele foi expulso da banda por ter problemas com drogas. Até onde eu sei, ele já teve umas quatro overdoses (documentadas) e sobreviveu sem nunca se ouvir falar que ele tenha ido a uma clínica de reabilitação, diferente do James Hetfield, guitarrista, vocalista e mentor do Metallica. Tendo sido expulso, Dave resolveu montar sua própria banda e acabou também assumindo o posto de vocalista. Assim nascia o Megadeth.
Com liderança e punho de ferro, Mustaine definiu os caminhos da sua banda por onde ele quis ir, de forma que sempre houveram diversas mudanças de formação. Mesmo com essas mudanças, permanecem os ideais dele na música, que também segue aquela veia caótica que eu citei no outro artigo, mas com peculiaridades que não vejo em outras bandas. Há quem odeie o Megadeth. Mas é difícil ficar indiferente ao ouvir o som da banda. O vocal é bem diferente de outras bandas, com forte personalidade e influência clara do (amigo) Alice Cooper, mas numa versão mais agressiva. As músicas tem uma complexidade que faz com que seja necessária muita independência motora para tocar e cantar ao mesmo tempo, coisa que Dave faz de maneira invejável - eu mesmo vi ao vivo mais de uma vez.
Eu já admirava o cara, não precisava de mais nada. Mas, algum tempo atrás, ele teve uma contusão no braço, algo a ver com ligamentos e tendões, e os médicos disseram que com muito trabalho ele voltaria a ter os movimentos, mas não conseguiria mais tocar. Eu não imagino esse cara no palco sem a guitarra na frente. E nem cheguei a ver. Contrariando os prognósticos ruins, ele fez o que foi necessário para ter seus movimentos de volta e tocar novamente. E ficou melhor que antes. Acabou aproveitando o meio-tempo para se resolver espiritualmente e, como ele mesmo diz, colocar suas prioridades em ordem, convertendo-se ao Cristianismo, o que certamente contrasta com suas preferências musicais - e disso eu entendo BASTANTE. Mudou seu comportamento e vive melhor com a família, com a carreira e consigo mesmo. Não sei exatamente em que ponto ele se livrou dos vícios. Mas com certeza ele continua sendo um líder em tempo integral - inclusive sobre si mesmo. E eu o admiro muito por isso.
Claro que há quem não goste e eu acho que é um delírio querer/esperar que todos gostem do seu trabalho. Mas que ele fez a história de um estilo musical, fez. Que ele é um exemplo de liderança, é. E também um exemplo de auto-renovação, mesmo depois de muitos anos com uma fórmula funcionando bem. E isso me traz o otimismo do seguinte ponto de vista: não é que as coisas não estejam boas…é que sempre podem ser melhoradas!
“Yesterday’s answers has nothing to do with today’s questions.”
Dave Mustaine
Moe.
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