Moe’s Lucid Dreams
Sonhos lúcidos com uma trilha sonora incrível…

Eu descansaria no sétimo dia

Agosto 6th, 2009 de Moe
Certa vez li que o que somos como músicos é um reflexo do que somos como pessoas. Isso é bem verdade. Não enxergo uma pessoa desleixada sendo um músico perfeccionista. Claro que isso também acontece comigo, então acabo sendo um músico perfeccionista, metódico, extremamente crítico - especialmente comigo mesmo. Por isso, há poucas obras que eu admiro a ponto de colocar no patamar de uma “obra que eu gostaria de ter escrito”. Mas, com certeza esse é o caso de Empire, do Queensrÿche.

Queensrÿche - Empire Era

Antes que achem que estou sendo só fanático (talvez um pouco, mas não é só isso), devo dizer que quem conhece um pouco o mercado musical - seja o antigo, o novo ou tudo que está acontecendo entre um molde e outro - sabe que é extremamente difícil emplacar grandes sucessos no gênero do metal progressivo. E esta é uma banda que conseguiu atingir até quem nem sabe que existe um estilo chamado heavy metal progressivo, ao menos com uma música, e sem destoar do resto do seu trabalho, ou seja, sem tornar-se mais uma one-hit wonder.

Esse disco contou com a formação clássica da banda, Geoff Tate no vocal, Chris deGarmo e Michael Wilton nas guitarras, Eddie Jackson no baixo e Scott Rockenfield na bateria. Tive a felicidade de ver essa formação ao vivo, em novembro de 2007, pouco antes da saída de Chris deGarmo, que foi ser piloto de aviação comercial, após construir uma carreira bem sucedida na música. Vai entender. O pior é que ele era um dos principais compositores, ao lado de Tate, e foi das idéias dele que partiu a maior parte desse disco, que teve cinco video clips gravados e lançados como single, e a música que você provavelmente conhece é Silent Lucidity, que contou com a ajuda de Michael Kamen para os arranjos de orquestra. Tocou em rádios brasileiras até não dar mais. E foi assim que você acabou gostando de uma música que é de uma banda que você nem sabe que existe.

É também fato que esse foi um dos álbuns que eu mais escutei na vida, ao lado de Images And Words, do Dream Theater. E foi justamente o Queensrÿche, junto com o Fates Warning, que pavimentou o caminho para bandas como Symphony X e o próprio Dream Theater com o início do que veio a ser chamado heavy metal progressivo. No início, diziam que o Queensrÿche era uma mistura igualitária de Rush e Iron Maiden. Bem verdade. Com o tempo, o lado progressivo foi aparecendo mais, até chegar ao Empire. Após este, a banda foi tomando outro direcionamento, também bom, mas esse, para mim, foi o apogeu. O mais curioso é que a banda é de Seattle, terra do grunge e outras coisas mais, que nada tem a ver com eles.

Claro que estou ouvindo o CD enquanto escrevo, e agora toca a faixa título, Empire, que aborda temas como formação de gangues de rua e proliferação de drogas, que, mesmo tendo sido composta no início dos anos noventa, continua atual, infelizmente. Mas há também outras mensagens mais introspectivas, como em Best I Can. Ótimas baladas como Jet City Woman, que não exagera no fator radiofônico e mesmo assim foi um dos maiores hits do disco. One And Only e Hand On Heart também tratam de relacionamentos bem como a belíssima Another Rainy Night (Without You). A mais progressiva Anybody Listening? tem uma atmosfera muito interessante e também trata aspectos humanos de um jeito bem poético, assim como Della Brown, só que esta é mais diretamente sobre uma pessoa, menos generalizada. E não posso deixar de citar The Thin Line, que é uma das minhas favoritas, inclusive pelo ótimo trabalho de vocal, e Resistance, que é mais enérgica e mostra bem os ótimos timbres das guitarras - que permeiam todo o disco.

Procurei anos por essa versão do cd que tenho, com três faixas bônus: a maravilhosa Dirty Lil’ Secret, que tem uma vibe meio blues, um pouco diferente do que eles costumavam fazer, mas casando bem com o resto, Last Time In Paris, que foi composta para o filme The Adventures Of Ford Fairlane e a perfeita interpretação de Scarborough Fair, que é uma música de autoria desconhecida, mas que ficou bem famosa na versão de Simon & Garfunkel, que são creditados no disco. Nesta, o alcance vocal de Tate é colocado em pleno serviço da música e mostra que o cara realmente é um vocalista bem diferenciado.

Vou parar por aqui, porque eu poderia ficar dias escrevendo sobre esse disco e essa banda. O que posso dizer é que é certamente uma das minhas maiores influências, especialmente o Chris deGarmo, sempre colocando todo o potencial a favor da música e conseguindo resultados que muitas pessoas que tem mais recursos não conseguem. É um disco que eu gostaria de ter escrito, tocado, criado. E, sem a intenção de cometer nenhuma heresia, se tivesse sido esse o caso, eu ficaria sossegado para descansar no sétimo dia.

“Long ago there was a dream, had to make a choice or two
Leaving all I loved behind for what nobody knew
Stepped out on the stage alive, under lights and judging eyes
Now the applause has died and I can dream again”
Chris deGarmo

Moe.

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