A Escala da sua cabeça
Vou resumir a história, já que estou linkando o vídeo. O Bobby McFerrin (isso, aquele mesmo de Don’t Worry, Be Happy e que ganhou dez prêmios no Grammy) demonstrou em um festival de ciências a percepção das pessoas, gesticulando e pulando no palco. Primeiro, ele marcou uma nota em um lugar que ele pulava. Depois, marcou uma mais aguda e, a partir do terceiro lugar que ele pulou, todas as pessoas começaram a cantar as mesmas notas, a platéia toda! Exatamente como se ele estivesse pulando nas teclas de um piano gigante.
Beleza. Todo mundo cantando junto, que bonito. O problema é: como as pessoas sabiam a nota que deveria ser cantada??? Acabou sendo montada a escala pentatônica com as vozes das pessoas - que basicamente consiste em uma escala de cinco notas, geralmente derivada de outra escala. A escala mais comum, a maior, tem sete notas diferentes e, tirando duas, você obtém a pentatônica.
Eu não tenho a mínima formação em medicina, mas eu acredito que isso remeta à genética. Herança genética, para ser mais exato. Faz tempo que existem os padrões musicais, as coisas consideradas “bonitas” e “certas”, que podem não ser as únicas a agradar ao ouvinte, vide meus artigos falando sobre bandas de sonoridade caótica. Mas, o que penso é que o considerado bonito e certo é na verdade o previsível. Sabe quando entra aquele refrão que você decora de primeira? Aquela passagem “grudenta”? Isso é obtido dado ao grau de previsibilidade da passagem, unido à interpretação do artista e apoiado pela sua herança genética de várias gerações achando aquilo bonito. Daí se montam as relações matemáticas entre as notas na formação de escalas e tudo mais. Daí se explica porque a música pop é pop e porque outras são esquisitas e difíceis de ouvir.
É interessante também como isso assume caráter regional. Por exemplo, o Angra, que toca essencialmente heavy metal, costuma misturar elementos de música brasileira a esse estilo, resultando em acentuações diferentes nos ritmos, percussões não muito usadas para esse tipo de música. Para nós, brasileiros, isso não tem o mesmo impacto que para os japoneses (que adoram o Angra, por sinal). Aqui, a gente já tem um pouco disso na cabeça e a surpresa se dá mais pela mistura do que pelo elemento em si, ao passo que no Japão, esse tipo de coisa brasileira não existe. E os caras ouvem o heavy metal com swing brasileiro e pensam, “que diabos o cara tá fazendo?”, e é “só” uma acentuação de baião com guitarra distorcida.
Tudo me leva a crer que precisamos tomar cuidado com o que preservamos para deixar de herança. Senão, é possível que, em algumas gerações, a beleza musical tome um caráter bem diferente. E possivelmente não tão bonito.
“Just use your head and in the end you’ll find your inspiration”
Axl Rose
Moe.
[Atomic Lab]
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Setembro 8th, 2009 às 17:53
O que você me diz da tua herança musical?
Setembro 9th, 2009 às 01:35
Eu certamente gosto muito dela. Não só aprecio o fato de ter crescido ouvindo música boa, mas também o fato de viver numa época em que existe uma grande diversidade de coisas para se ouvir.
É claro que a gente gosta de reclamar e dizer que “a música não é mais a mesma”…hehehe. Mas ainda tem gente fazendo música boa sim e também temos todas as coisas mais antigas para ouvir. Não acompanhei o surgimento dos Beatles, mas posso ouvir qualquer disco deles. E também posso ouvir o que veio depois e acho isso muito bom e, claro, trabalho para passar tudo isso pra frente também, já que minha música é um resultado de tudo que gosto no que escuto.
Dezembro 9th, 2009 às 19:29
Gostei muito desse post. Sou curiosa sobre “como as coisas funcionam” linkado ao senso comum e essa “experiência” é algo “fácil” de se interessar e de disseminar porque está ligada a tudo o que fazemos, independente deconhecimento musical. Bom… bom mesmo.