Um dia desses, eu estava jantando perto das onze e meia da noite e aproveitei para assistir ao Gene Simmons Family Jewels, um reality show com a família do baixista do Kiss.

Gene é conhecido por ser um “business man”, um marketeiro. Os fãs sabem que ao mesmo passo que Paul Stanley é o glamour, focado na imagem adequada e afins, Simmons foi um desbravador em termos de merchandising e branding – o que, na opinião de muitos especialistas, é uma das coisas que pode salvar o music business atual. Mas ele já pensava nisso na década de 70.

Gene Simmons

O que mais me chamou atenção no episódio foi uma parte onde ele disse algo assim: “Percebo muitas pessoas reclamando que ganham pouco, especialmente os jovens. Você quer ganhar mais dinheiro? Trabalhe mais!” Depois disso, ele fez uma conta de quantos dias você trabalharia a mais por ano se trabalhasse 7 dias por semana e tivesse 2 semanas de folga no ano. Um cálculo um pouco extremo, mas nem tanto.

Outro dia tive uma conversa com alguns amigos e expliquei um pensamento que tenho sobre a relação retorno/investimento de uma carreira na música ou qualquer outra. Sempre discordo das pessoas nesse assunto, porque o que a maioria delas pensa é: para uma carreira na música, preciso comprar um bom equipamento e aparatos, investir meu tempo e dinheiro em instrução, ensaios, etc., e é difícil arrumar oportunidades que paguem bastante por um show ou gravação. Ok, tudo isso é verdade.

“Mas o que as pessoas não pensam”, eu disse a eles, “é que para qualquer outra carreira, você está sendo preparado e alguém está investindo em você desde quando você era quase um bebê! Você é um programador? Você escreve linhas de comando porque foi alfabetizado, mas isso não tem tanto a ver com eu pegar uma guitarra e tocar, teria a ver com escrever letras, mas não preciso ser um letrista para ser músico (embora eu o seja).” Claro, o exemplo da alfabetização foi simplificado, porque você precisa conhecer os protocolos de comunicação chamados línguas (desculpem o trocadilho). Mas o que é nítido para mim é que as pessoas não incluem nas suas continhas o que não foi pago diretamente por elas ou o que não tem uma finalidade direta e sim genérica – o que não é o caso de cursos de música, estúdios e instrumentos.

O pensamento de ser músico é sim um ato revolucionário. Não de uma maneira juvenil e marginal, simplesmente buscando a identidade em um radicalismo, mas de qualquer ponto de vista maduro. É sim uma contramão que você está pegando, nadando contra a corrente. E essa analogia funciona exatamente como o comentário de Gene Simmons: se você pretende ser mais forte do que o rio que te empurra, deve estar disposto a forçar (muito) seus braços.

Conheço pouquíssimas pessoas que fazem isso, mesmo em outras profissões. Mas conheço MUITA gente que reclama. Estou tentando ficar nesse primeiro time aí – com certeza é mais rentável! Antes eu me decepcionava porque alguém não fazia algo, ou não fazia da maneira como eu penso ser a melhor e as coisas acabavam não dando muito certo. Claro que dá vontade de reclamar. Mas é melhor abraçar o fardo que você escolheu e carregá-lo. De boca fechada para ter mais fôlego.

“I may have wasted all those years/they’re not worth their time in tears/I may have spent too long in darkness/in the warmth of my fears/Take a look at yourself/not at anyone else/and tell me what you see/I know the air is cold/I know the streets are cruel/but I’ll enjoy the ride today” – John Myung

Moe.
[Atomic Lab]