Muita gente sabe que o Paul McCartney fez shows em São Paulo, ontem e hoje. Eu consegui ser um dos milhares de afortunados a realizar o sonho de uma vida. Certamente é difícil expressar em palavras algo assim. Digo, sem nenhum medo de estar errado, que Paul é o mais importante compositor vivo. O mais famoso também, mas não achei adequado colocar isso na mesma frase, pois seu legado vai muito além de fama.

Paul McCartney

A primeira coisa que eu noto é o diferencial na ética de trabalho. Com quase 70 anos, nunca o vi falar em aposentadoria. Só pode ser amor que segura um cara em algo por tanto tempo. E o vigor e dedicação, com 3 horas de show e muita emoção, com direito até a voz embargada no início de My Love, após dizer que escreveu a música para “minha gatinha Linda”. Isso depois de já ter tocado alguns clássicos mais esperados, como Jet, All My Loving, Drive My Car, The Long And Winding Road e Let’em In.

Tenho que falar sobre a banda: não é sem motivos que ele mantém a mesma formação a mais ou menos uma década. Esses caras têm, na minha opinião, o melhor emprego do mundo – e fazem jus à posição: Rusty Anderson (guitarra), Brian Ray (guitarra, baixo), Paul Wickens (teclados) e Abe Laboriel Jr (bateria). Eles incorporam os clássicos desde a época dos Beatles até canções mais recentes, executando tudo com maestria, mostrando uma polivalência rara e imprescindível.

Impressionante também é a humildade e entrega que Paul demonstra no palco. Tentando falar Português, citando a falecida esposa Linda, ficando na frente de milhares de pessoas, sem barreiras entre si e o público, armado por três coisas poderosíssimas e de aparência inofensiva para um desavisado: um violão, uma voz e uma composição fantástica de melodia inesquecível. Assim ouvimos Yesterday, Blackbird e Here Today, esta última escrita e tocada em homenagem a John Lennon, mostrando que aparentes rusgas deixadas por um projeto terminado não podem ser maiores que a amizade, amor e cumplicidade necessários para o sucesso da empreitada conjunta. Em molde similar e em homenagem a George Harrison, iniciou Something, acompanhado apenas por um ukulele e depois tendo a entrada da banda, quando Rusty brilha com mais uma interpretação magnífica do famoso solo.

Um ponto muito alto do show para mim foi Band On the Run, uma de minhas favoritas. Perfeita. Interessante observar Rusty e Brian trocando de instrumentos, para proporcionar o timbre ideal para as diferentes partes da música, e a cara de contente de Brian quando toca sozinho o interlúdio com o violão de doze cordas.

Em seguida, fazendo uma orgia de Beatles, emendaram com clima cômico em Ob-La-Di, Ob-La-Da e rock de primeira em “Back In The USSR”, que até o título já entrega que é das antigas. Continuaram com I’ve Got A Feeling, Paperback Writer (essa me pegou de surpresa, realmente), A Day In The Life, que é outra de minhas favoritas que eu estava esperando muito para ouvir, e tem seu final substituído pelo refrão de Give Peace A Chance, de John Lennon. No final da orgia, Let It Be e Hey Jude tem seu clima nostálgico separado por Live And Let Die, com o palco literalmente incendiado e uma queima de fogos acompanhando. Foi um combo magnífico, pra fã nenhum botar defeito.

No caminho para o estádio, comentei com meu irmão e meu pai algumas músicas que achávamos que deviam ser tocadas, e uma delas foi Lady Madonna, e o desejo foi atendido. Obviamente algumas ficaram de fora, mas é o que se ganha com o fato de Paul McCartney ser um compositor tão prolixo e bom. Pronto. Bom. Não há o que dizer de um cara que compôs a música mais regravada do planeta e muitas outras que mexem com quem escuta, com uma carreira tão extensa, com uma perseverança tão grande no que faz. É um longo caminho desde um garoto que cabulava aulas em Liverpool para tocar violão com os amigos até um Sir que faz uma turnê mundial que você ficou esperando praticamente 20 anos para ver. Não é algo que todo mundo consegue. Alguns não conseguem porque são baleados em frente de casa, mas a maioria de nós não consegue simplesmente porque não somos bons como ele. E ponto final.

Se eu comentasse cada música, o post ficaria longo demais para alguém ler (se é que já não está). Mas posso afirmar que a qualidade permeou o show e a resposta do público foi de acordo. Realmente algo único, digno de um Beatle. Digno do compositor mais importante atualmente vivo.

“And the first one said to the second one there ‘I hope you’re having fun!'”
Paul McCartney

Moe.
[Atomic Lab]

PS1: feliz Dia do Músico pra você também!

PS2: segue o setlist divulgado no site oficial:
1. Venus and Mars / Rockshow
2. Jet
3. All My Loving
4. Letting Go
5. Drive My Car
6. Highway
7. Let Me Roll It
8. The Long And Winding Road
9. Nineteen Hundred and Eighty Five
10. Let ‘Em In
11. My Love
12. I’ve Just Seen A Face
13. And I Love Her
14. Blackbird
15. Here Today
16. Dance Tonight
17. Mrs Vandebilt
18. Eleanor Rigby
19. Something
20. Sing The Changes
21. Band on the Run
22. Ob-La-Di, Ob-La-Da
23. Back In The USSR
24. I’ve Got A Feeling
25. Paperback Writer
26. A Day In The Life / Give Peace A Chance
27. Let It Be
28. Live And Let Die
29. Hey Jude

Encore
30. Day Tripper
31. Lady Madonna
32. Get Back

Second Encore
33. Yesterday
34. Helter Skelter
35. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band / The End