Artigo

E no terceiro dia…

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Todo minuto da minha vida é um divisor de águas. Mas em alguns deles, até parece que a água pára de correr, pra voltar somente depois de um tempo.

As pessoas mais próximas a mim sabem do acontecimento de Fevereiro, e sabem exatamente o que tudo isso significa para mim. Sabem que significa que tenho que tomar as rédeas de muitas coisas, que tenho que fazer coisas que já deveria estar fazendo há muito tempo, sabem que estou pensativo, meditando sobre a minha vida e o que mais vem a seguir. Esse blog não tem um caráter pessoal, mas tem certas coisas que afetam todas as esferas da sua vida, logo, este espaço não iria escapar também.

Mas, longe de ser algo com objetivo de deixar alguém deprimido, devo dizer que é possível estar em paz, mesmo não podendo ainda estar feliz. Tudo mudou para sempre, simplesmente porque EU mudei para sempre. Mas tudo que guardo dentro de mim, todas as coisas boas que guardo, estarão sempre aqui e sempre me levando para frente, junto com minha fé, com as orações e ajuda dos bons amigos e amigas e também com o suco que todos sabem que é um grande alimento para mim, a música.

Hepen + Moe no Fest Fecha 13

Antes de tudo acontecer, tinha recebido um convite do meu amigo Neto para tocar com a banda dele numa festa, já que eles estão com um guitarrista só. Topei na hora. O repertório bem variado, tendo de Queen a Raul Seixas, passando por Supertramp, Men At Work, Cazuza e Barão Vermelho, Bob Marley e muitas outras coisas, inclusive composições da própria banda, que podem (e devem) ser conferidas no site deles, com download gratuito, vídeos no Youtube, letras e tudo mais. Aposto que já tem gente surpresa nesse ponto, por causa da diversidade. Minha mãe, sabendo de como eu gosto de tocar ao vivo (tocar, de qualquer forma possível, na verdade) estava muito contente com isso, me incentivou muito, como sempre. Daí, com tudo que aconteceu, sobrou uma semana para aprender o repertório todo, de mais ou menos 80 músicas. Isso em meio às outras tarefas que a vida me apresenta.

Hepen + Moe no Fest Fecha 13

Deu tempo? Eu fiz dar tempo. Tiveram muitas coisas que teriam feito muita gente desistir, mas eu fui mesmo assim. Até o jantar, uma hora antes da hora combinada no local, atrasou. Celular sem funcionar. Bom, várias coisas. Várias coisas irrelevantes. Deu certo? É melhor perguntar para quem foi. Mas, do meu ponto de vista, de cima do palco, depois de estar tocando por quase quatro horas e o pessoal não querendo que a banda pare, acho que é um forte indício de que a resposta seria ‘sim’.

Curti demais e consegui tirar minha cabeça de todo o resto, naquele transe magnífico que só acontece no palco, quando você tá tocando sem ensaiar com a banda (na verdade, conheci a galera subindo no palco), principalmente se for alguma música diferente daquelas 80, que você nem ouvia há muito tempo, e você agradece a Deus por ter um ouvido colado no amp do baixo e um olho vidrado na mão do tecladista. Fazendo tudo isso ao mesmo tempo, ainda tentando colaborar com uns backings, você não vai conseguir pensar em mais nada. E quando dá certo você sente aquela reafirmação de que você tá no lugar certo, tá fazendo a coisa certa. Não que eu tivesse dúvida. Mas como dizem alguns, não é ver para crer, é preciso crer para ver.

Hepen + Moe no Fest Fecha 13

Quero agradecer todo o pessoal da Hepen, Eder (bass/vox), Pedro (drums), Edilson (keys), especialmente o Neto (guitar/vox) pelo convite, além do pessoal do Fecha Bodegas, uma galera que realmente curte o som, agita muito mesmo depois de um dia inteiro de festa, até as 3 e meia da manhã. Foi o primeiro show que toquei onde você ouvia de um lado ‘toca Raul’ e do outro ‘toca um Petrucci aí’. E especialmente também quero agradecer minha noiva Vanessa, por me aturar falando quase que só disso por dias enquanto me preparava pra jornada, e também no caminho inteiro. Ida e volta.

“Always be my Guide and show me my way.”

Moe.
[Atomic Lab]

Dez Ótimos Álbuns (Parte 2)

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Esta é a segunda parte do artigo. Novamente, não é um top-sei-lá-o-que. Só uma lista de sugestões de audição.

King Diamond - Voodoo
King DiamondVoodoo
Este é um cara que faz algo peculiar. Certamente peculiar demais para ficar popular. Mesmo no estilo que ele trabalha, o heavy metal, é sempre um caso de ame ou odeie. Gosto dos personagens que ele interpreta em seus discos, que são geralmente conceituais, e neste é abordada a temática do vodu, que eu acho um tanto interessante. É quase como um livro escrito e percebe-se que ele fez a lição de casa em termos de pesquisas para as estórias. Além disso, Andy LaRocque é, na minha opinião, um dos guitarristas mais geniais que já ouvi e, apesar da formação da banda nesse disco não ser a minha favorita, o álbum soa muito coeso, preciso, bem produzido e sinistro. E se você não tomar pelo menos um susto ouvindo, bem…provavelmente você está mentindo. Risos.

Queensrÿche - Empire
QueensrÿcheEmpire
Este já teve um post dedicado somente a ele neste blog. Maravilhoso disco, extremamente inspirado. Perfeito trabalho de todos os integrantes, especialmente de Chris de Garmo, também genial, e o idealizador da coisa toda. Não é à toa que a banda nunca mais foi a mesma após sua saída, mas felizmente eu tive o privilégio de ver um show pouco antes dele sair. É um disco especial, navega por diversos temas, tem boas baladas, ótimos solos e riffs de guitarra, a inconfundível voz de Geoff Tate, e também o ótimo trabalho de Scott Rockenfield, Eddie Jackson e Michael Wilton.

Nevermore - Dreaming Neon Black
NevermoreDreaming Neon Black
Esta é uma banda como poucas. Ou talvez como nenhuma outra. Com um dos melhores intérpretes no gênero do heavy metal (o vocalista Warrel Dane) e temáticas sempre inquietantes, o Nevermore é uma das bandas mais novas das quais eu realmente gosto – e olha que seu primeiro disco foi lançado em 1994. Com Jeff Loomis na guitarra, por vezes acompanhado por algum outro guitarrista numa vaga cíclica (no caso deste disco, Tim Calvert), é um dos caras mais criativos com o instrumento. Além de técnica impecável, seu fraseado é muito diferenciado e seus riffs são extremamente marcantes e compõem a força motriz da banda. A cozinha do baixista Jim Sheppard e do baterista Van Williams é extremamente entrosada e realmente monta a cama para tudo que acontece em cima dela. Este é um álbum conceitual que trata da história de um homem levado à loucura pela perda de sua amada. Nem parece tema de um disco de heavy metal, né? Pois é. Mas eu acho que é uma das melhores obras deles, especialmente porque não tem aquele ‘Q’ de disco conceitual, é um álbum que flui muito bem e todas as músicas funcionam muito bem sozinhas. Pouca gente conhece. Mas quem conhece, gosta.

Dream Theater - Awake
Dream TheaterAwake
Claro que tinha que ter um Dream Theater. Também foi difícil escolher qual o álbum desta banda eu colocaria, visto que sou muito fã e que provavelmente o disco que mais escutei na vida foi o mais conhecido deles, Images And Words. Mas escolhi este por apresentar uma atmosfera que gosto mais, um tanto mais escura e sombria, e principalmente por causa da introdução da guitarra de sete cordas, que é um instrumento que gosto muito e que tornou-se extremamente importante na sonoridade da banda. A competência dos membros é indiscutível, embora muita gente critique o vocalista James La Brie, como se fosse fácil cantar sobre os compassos muito incomuns nos quais ele parece totalmente confortável. Nesta época, a banda ainda contava com o primeiro tecladista, Kevin Moore, o baixista John Myung e um dos meus favoritos, o guitarrista John Petrucci, além do baterista Mike Portnoy, que saiu da banda esse ano depois de 25 anos de carreira.

The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
The BeatlesSgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
Claro que não poderia faltar um Beatles, de forma alguma. Gosto muito da discografia inteira, mas esse disco é especial para mim, porque me lembro ouvindo-o muito quando eu era muito novo. Vários anos depois eu fui saber da importância histórica dele, meio que inaugurando todo o lance de rock psicodélico, abrindo as portas para toda a cultura flower-power dos hippies e parindo a década de 70. Sem contar todo o conceito do álbum: como eles não fariam uma turnê, o álbum sairia em turnê. E, baseados nessa idéia, os Fab Four escreveram as músicas de forma a apresentar a banda na primeira e agradecer a todos pela presença na “última”, que na verdade acabou sendo a penúltima. Entra também o conceito de full-circle, ou “termino onde começo”, com a música Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e sua reprise, e depois um perfeito adendo com A Day In The Life, que muito antes de eu aprender a falar inglês eu já percebia algo que descrevo como “um gosto de morte”. O meio do disco conta com diversas outras pérolas, como Lucy In The Sky With Diamonds, Lovely Rita, She’s Leaving Home, Fixing A Hole, Good Morning Good Morning e uma de minhas favoritas, Getting Better. Within You Without You traz a viagem de George Harrison e Being For The Benefit Of Mr. Kite! trata-se de John Lennon musicalizando um cartaz de anúncio de um circo. Paul McCartney também brilha como sempre e parece um tempo muito distante quando ele cantava When I’m Sixty-Four. Ringo Starr também fez seu trabalho como sempre e cantou With A Little Help From My Friends, que acabou virando um hino sobre a amizade e marcou a época. O que pouca gente sabe é que na verdade as primeiras músicas para esse álbum foram as famosíssimas Strawberry Fields Forever e Penny Lane, que saíram como singles pouco antes. Desnecessário dizer que é difícil superar um disco desses.

Faltou disco, com certeza. Eu mesmo, ao terminar de escrever, penso em alguns que eu deveria ter colocado. Mas não vai faltar oportunidade.

“Fly beyond the dreaming, fly beyond our being
Turn and face the mirror, the answers come, clear as glass.”
Warrel Dane

Moe.
[Atomic Lab]

Dez Ótimos Álbuns (Parte 1)

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Longe de ser um “top ten”, montei uma lista de alguns discos que estão entre meus favoritos e vou postá-la em duas partes. Essa é a primeira.

A proposta não é dizer que são os melhores, os mais famosos ou os mais qualquer-coisa-que-você-imaginar. Simplesmente estive refletindo sobre alguns discos que eu salvaria de um incêndio se pudesse escolher somente alguns. Aproveitei para contar um pouco do que cada um me passa, o que faz cada um deles importante para mim. Provavelmente a maioria dos artistas já foi citado aqui no blog exatamente por esse motivo. Vamos lá.

Shadow King - Shadow King
Shadow KingShadow King
Esse é um álbum que esperei nada menos que nove anos para encontrar, e acabei ganhando-o de presente de meu amigo Fernando. Uma das minhas obras favoritas de hard-rock, esse álbum contém ótimas músicas, compostas em sua maioria pela dupla Lou Gramm e Bruce Turgon, tendo na banda também Kevin Valentine e Vivian Campbell. É o único disco oficial da banda, e a única música da qual tenho notícia que foi gravada além destas foi One Dream, que foi parar na trilha sonora de Highlander II, que foi como conheci a banda. É realmente uma jóia tão rara quanto desconhecida, e vale muito a busca.

Rush - Counterparts
RushCounterparts
Esse foi o primeiro disco do Rush que eu realmente peguei para ouvir, e uma das primeiras coisas que reparei foi na maturidade usada na mescla dos instrumentos, com os teclados na medida certa, após uma fase que eu julgo meio exagerada nesse sentido (não somente eu, mas também o guitarrista Alex Lifeson). Considero este o melhor trabalho do Rush, por conta disso, e também pela musicalidade, precisão na execução das maravilhosas músicas e por conter letras do baterista Neil Peart que são realmente pensadas e que fazem pensar também quem presta atenção a isso. Geddy Lee também brilha com algumas das que eu julgo como suas melhores levadas de baixo, e o vocal ótimo como sempre, com a estridência melhor dosada que no passado. Infelizmente, raramente são tocadas músicas deste nos shows, o que acaba deixando o álbum na obscuridade, de certa forma. Dificilmente é o primeiro disco que algum fã cita. Mas, para mim, é o melhor.

Savatage - The Wake Of Magellan
SavatageThe Wake Of Magellan
Como sempre procuro sentido nas letras e adoro álbuns conceituais, este aqui me agrada muito. Capitaneado por Jon Oliva, o Savatage traz uma vertente do heavy metal um tanto difícil de enquadrar nos cada vez mais numerosos subgêneros. Mas o importante é que a competência de todos e o tempero do produtor, letrista e compositor Paul O’Neill faz com que seja uma obra magnífica. As guitarras de Chris Caffery e Al Pitrelli estão em perfeita combinação com os riffs de piano (difícil ouvir essas duas palavras numa mesma frase, riff e piano) de Oliva, sobre a competente cozinha do baixista Johnny Lee Middleton e do baterista Jeff Plate. Dando vida aos personagens e narradores da história, Zak Stevens e Oliva alternam suas vozes, dando uma variação que gosto muito, principalmente por conta da interpretação de cada um em cada momento.

Grand Funk Railroad - Closer To Home
Grand Funk RailroadCloser To Home
Conheci o Grand Funk quando era bem novo, ouvindo esse disco com meu pai e meu irmão, não lembro exatamente quando. Mas sei que depois dessa vez, ouvi muitas vezes o disco novamente. A combinação de peso em algumas faixas e leveza em outras dá muita dinâmica ao trabalho, que eu sempre enxerguei como uma curva, com Mark Farner começando agressivamente na guitarra, passando pelo piano Fender Rhodes e depois para o lendário órgão Hammond, antes de voltar para a guitarra, combinando tudo numa ótima atmosfera para terminar o disco, sempre acompanhado de Mel Schacher no baixo e Don Brewer na bateria, que também dividia vocais com Farner. Ótima obra. Perfeita para quem curte um som setentista mas quer sair do óbvio triângulo Purple-Zeppelin-Sabbath.

Steve Vai - Sex & Religion
Steve VaiSex & Religion
Novamente, saindo do óbvio. Este foi um trabalho muito criticado, porque o virtuoso Steve Vai resolveu montar uma banda completa e ter uma abordagem mais “normal”. Então, ele reuniu Devin Townsend, TM Stevens e Terry Bozzio (três caras que não tem nem um pouco de normal, mediano ou medíocre) e gravou esse disco, ainda soando como um trabalho solo dele, mas com essa intenção de banda. O resultado acabou antecipando algumas coisas da carreira dele, pois ele mesmo viria a cantar posteriormente (na verdade, já tinha feito isso antes, mas somente em trabalhos mais experimentais e left-overs, e nesse disco mesmo, ouve-se bastante da voz dele). Ótimo trabalho, e mostra com extrema nitidez o por quê de termos que seguir nossa intuição artística independentemente do que os outros digam: quando ele fez discos com milhares de guitarras, criticaram, quando fez com uma banda, criticaram também. E eu (e alguns milhões de pessoas) gosto das duas coisas.

“Young enough not to care too much
About the way things used to be
I’m young enough to remember the future – The past has no claim on me
I’m old enough not to care too much
About what you think of me
But I’m young enough to remember the future – And the way things ought to be.”
Neil Peart

Moe.
[Atomic Lab]

O Show de Paul McCartney

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Muita gente sabe que o Paul McCartney fez shows em São Paulo, ontem e hoje. Eu consegui ser um dos milhares de afortunados a realizar o sonho de uma vida. Certamente é difícil expressar em palavras algo assim. Digo, sem nenhum medo de estar errado, que Paul é o mais importante compositor vivo. O mais famoso também, mas não achei adequado colocar isso na mesma frase, pois seu legado vai muito além de fama.

Paul McCartney

A primeira coisa que eu noto é o diferencial na ética de trabalho. Com quase 70 anos, nunca o vi falar em aposentadoria. Só pode ser amor que segura um cara em algo por tanto tempo. E o vigor e dedicação, com 3 horas de show e muita emoção, com direito até a voz embargada no início de My Love, após dizer que escreveu a música para “minha gatinha Linda”. Isso depois de já ter tocado alguns clássicos mais esperados, como Jet, All My Loving, Drive My Car, The Long And Winding Road e Let’em In.

Tenho que falar sobre a banda: não é sem motivos que ele mantém a mesma formação a mais ou menos uma década. Esses caras têm, na minha opinião, o melhor emprego do mundo – e fazem jus à posição: Rusty Anderson (guitarra), Brian Ray (guitarra, baixo), Paul Wickens (teclados) e Abe Laboriel Jr (bateria). Eles incorporam os clássicos desde a época dos Beatles até canções mais recentes, executando tudo com maestria, mostrando uma polivalência rara e imprescindível.

Impressionante também é a humildade e entrega que Paul demonstra no palco. Tentando falar Português, citando a falecida esposa Linda, ficando na frente de milhares de pessoas, sem barreiras entre si e o público, armado por três coisas poderosíssimas e de aparência inofensiva para um desavisado: um violão, uma voz e uma composição fantástica de melodia inesquecível. Assim ouvimos Yesterday, Blackbird e Here Today, esta última escrita e tocada em homenagem a John Lennon, mostrando que aparentes rusgas deixadas por um projeto terminado não podem ser maiores que a amizade, amor e cumplicidade necessários para o sucesso da empreitada conjunta. Em molde similar e em homenagem a George Harrison, iniciou Something, acompanhado apenas por um ukulele e depois tendo a entrada da banda, quando Rusty brilha com mais uma interpretação magnífica do famoso solo.

Um ponto muito alto do show para mim foi Band On the Run, uma de minhas favoritas. Perfeita. Interessante observar Rusty e Brian trocando de instrumentos, para proporcionar o timbre ideal para as diferentes partes da música, e a cara de contente de Brian quando toca sozinho o interlúdio com o violão de doze cordas.

Em seguida, fazendo uma orgia de Beatles, emendaram com clima cômico em Ob-La-Di, Ob-La-Da e rock de primeira em “Back In The USSR”, que até o título já entrega que é das antigas. Continuaram com I’ve Got A Feeling, Paperback Writer (essa me pegou de surpresa, realmente), A Day In The Life, que é outra de minhas favoritas que eu estava esperando muito para ouvir, e tem seu final substituído pelo refrão de Give Peace A Chance, de John Lennon. No final da orgia, Let It Be e Hey Jude tem seu clima nostálgico separado por Live And Let Die, com o palco literalmente incendiado e uma queima de fogos acompanhando. Foi um combo magnífico, pra fã nenhum botar defeito.

No caminho para o estádio, comentei com meu irmão e meu pai algumas músicas que achávamos que deviam ser tocadas, e uma delas foi Lady Madonna, e o desejo foi atendido. Obviamente algumas ficaram de fora, mas é o que se ganha com o fato de Paul McCartney ser um compositor tão prolixo e bom. Pronto. Bom. Não há o que dizer de um cara que compôs a música mais regravada do planeta e muitas outras que mexem com quem escuta, com uma carreira tão extensa, com uma perseverança tão grande no que faz. É um longo caminho desde um garoto que cabulava aulas em Liverpool para tocar violão com os amigos até um Sir que faz uma turnê mundial que você ficou esperando praticamente 20 anos para ver. Não é algo que todo mundo consegue. Alguns não conseguem porque são baleados em frente de casa, mas a maioria de nós não consegue simplesmente porque não somos bons como ele. E ponto final.

Se eu comentasse cada música, o post ficaria longo demais para alguém ler (se é que já não está). Mas posso afirmar que a qualidade permeou o show e a resposta do público foi de acordo. Realmente algo único, digno de um Beatle. Digno do compositor mais importante atualmente vivo.

“And the first one said to the second one there ‘I hope you’re having fun!'”
Paul McCartney

Moe.
[Atomic Lab]

PS1: feliz Dia do Músico pra você também!

PS2: segue o setlist divulgado no site oficial:
1. Venus and Mars / Rockshow
2. Jet
3. All My Loving
4. Letting Go
5. Drive My Car
6. Highway
7. Let Me Roll It
8. The Long And Winding Road
9. Nineteen Hundred and Eighty Five
10. Let ‘Em In
11. My Love
12. I’ve Just Seen A Face
13. And I Love Her
14. Blackbird
15. Here Today
16. Dance Tonight
17. Mrs Vandebilt
18. Eleanor Rigby
19. Something
20. Sing The Changes
21. Band on the Run
22. Ob-La-Di, Ob-La-Da
23. Back In The USSR
24. I’ve Got A Feeling
25. Paperback Writer
26. A Day In The Life / Give Peace A Chance
27. Let It Be
28. Live And Let Die
29. Hey Jude

Encore
30. Day Tripper
31. Lady Madonna
32. Get Back

Second Encore
33. Yesterday
34. Helter Skelter
35. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band / The End

Quando o jegue empaca (ou Burning My Soul)

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Ontem fui surpreendido pela notícia da saída de Mike Portnoy do Dream Theater, banda que ajudou a fundar mais ou menos 25 anos atrás e que popularizou (na medida do possível) o heavy metal progressivo. Ele deixou a banda e, na nota do site oficial, alegou que precisava de férias das atividades da banda, mas os demais membros não concordaram.

Mike Portnoy

Até aqui, tudo bem. Digo, esse tipo de coisa é bem comum em bandas – talvez não muito depois de uma jornada de 25 anos. Mas, lendo atentamente a notificação escrita pelo Portnoy, ele estava sentindo-se consumido pela “máquina DT”. E não é para menos. Já faz alguns anos que a banda está em uma certa rotina cíclica de “gravar disco – turnê mundial – gravar dvd ao vivo”. O que ocorre é que ele é um workaholic que supervisiona tudo pessoalmente e, além de tocar bateria (muito bem, por sinal), também produz os dvds, co-produz os albuns com o guitarrista John Petrucci, e demais tarefas bandísticas como compor músicas, escrever letras, etc.

Tudo bem normal, né?

Talvez nem tanto. O fato é que quando o jegue está sobrecarregado, mais cedo ou mais tarde, ele empaca. Fato.

Explico, claro! Longe de mim dizer que algum dos caras da banda seja relapso, mas Portnoy foi se cercando de mais e mais atribuições ao longo dos anos e estava longe de ser somente o baterista. Algumas de suas atribuições são realmente incomuns aos bateristas, como escrever grande parte das letras das músicas. Claro, Neil Peart escreve (muito bem) praticamente todas as letras do Rush desde que entrou, mas a maioria das composições não tem a participação dele. E assim funciona um time, cada um desempenha um papel, se compromete com alguma coisa, faz jus ao compromisso, e ninguém fica sobrecarregado. Ou pelo menos deveria ser assim.

Nunca vi equipe nenhuma em toda minha vida em que todos os membros estivessem equiparados em seus esforços. Nem espero ver. De verdade, não espero mais que isso aconteça e estou em paz com isso – o que não quer dizer que eu concorde.

Talvez, de uma certa forma, as equipes sejam fadadas a darem errado e seja preciso um constante esforço para evitar que isso aconteça. Como disse uma vez ao meu amigo e parceiro de projetos Renato, “A gente não precisa fazer nada pra dar errado. Aliás, nada é exatamente o que precisa ser feito. Essa p*##@ é morro abaixo!”

“You drop the ball, I pick up the slack and you ask me why my hairs gray (…) So I hurt your feelings, well I’m really sorry but I don’t give a shit…” – Mike Portnoy

Moe.
[Atomic Lab]

Gene pergunta: Quer mais dinheiro?

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Um dia desses, eu estava jantando perto das onze e meia da noite e aproveitei para assistir ao Gene Simmons Family Jewels, um reality show com a família do baixista do Kiss.

Gene é conhecido por ser um “business man”, um marketeiro. Os fãs sabem que ao mesmo passo que Paul Stanley é o glamour, focado na imagem adequada e afins, Simmons foi um desbravador em termos de merchandising e branding – o que, na opinião de muitos especialistas, é uma das coisas que pode salvar o music business atual. Mas ele já pensava nisso na década de 70.

Gene Simmons

O que mais me chamou atenção no episódio foi uma parte onde ele disse algo assim: “Percebo muitas pessoas reclamando que ganham pouco, especialmente os jovens. Você quer ganhar mais dinheiro? Trabalhe mais!” Depois disso, ele fez uma conta de quantos dias você trabalharia a mais por ano se trabalhasse 7 dias por semana e tivesse 2 semanas de folga no ano. Um cálculo um pouco extremo, mas nem tanto.

Outro dia tive uma conversa com alguns amigos e expliquei um pensamento que tenho sobre a relação retorno/investimento de uma carreira na música ou qualquer outra. Sempre discordo das pessoas nesse assunto, porque o que a maioria delas pensa é: para uma carreira na música, preciso comprar um bom equipamento e aparatos, investir meu tempo e dinheiro em instrução, ensaios, etc., e é difícil arrumar oportunidades que paguem bastante por um show ou gravação. Ok, tudo isso é verdade.

“Mas o que as pessoas não pensam”, eu disse a eles, “é que para qualquer outra carreira, você está sendo preparado e alguém está investindo em você desde quando você era quase um bebê! Você é um programador? Você escreve linhas de comando porque foi alfabetizado, mas isso não tem tanto a ver com eu pegar uma guitarra e tocar, teria a ver com escrever letras, mas não preciso ser um letrista para ser músico (embora eu o seja).” Claro, o exemplo da alfabetização foi simplificado, porque você precisa conhecer os protocolos de comunicação chamados línguas (desculpem o trocadilho). Mas o que é nítido para mim é que as pessoas não incluem nas suas continhas o que não foi pago diretamente por elas ou o que não tem uma finalidade direta e sim genérica – o que não é o caso de cursos de música, estúdios e instrumentos.

O pensamento de ser músico é sim um ato revolucionário. Não de uma maneira juvenil e marginal, simplesmente buscando a identidade em um radicalismo, mas de qualquer ponto de vista maduro. É sim uma contramão que você está pegando, nadando contra a corrente. E essa analogia funciona exatamente como o comentário de Gene Simmons: se você pretende ser mais forte do que o rio que te empurra, deve estar disposto a forçar (muito) seus braços.

Conheço pouquíssimas pessoas que fazem isso, mesmo em outras profissões. Mas conheço MUITA gente que reclama. Estou tentando ficar nesse primeiro time aí – com certeza é mais rentável! Antes eu me decepcionava porque alguém não fazia algo, ou não fazia da maneira como eu penso ser a melhor e as coisas acabavam não dando muito certo. Claro que dá vontade de reclamar. Mas é melhor abraçar o fardo que você escolheu e carregá-lo. De boca fechada para ter mais fôlego.

“I may have wasted all those years/they’re not worth their time in tears/I may have spent too long in darkness/in the warmth of my fears/Take a look at yourself/not at anyone else/and tell me what you see/I know the air is cold/I know the streets are cruel/but I’ll enjoy the ride today” – John Myung

Moe.
[Atomic Lab]

Sandman: Sobre Influências e Inspirações

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Geralmente, quando perguntam a um músico quais são suas influências, a resposta é composta por outros músicos ou bandas. Mas é óbvio que também bebemos de outras fontes.

The Sandman

Esses dias eu tenho estado nas margens arenosas de um grande lago criado por Neil Gaiman: o universo de Sandman. Entre minhas leituras atuais em livros de teoria musical, sites de music business e revistas de guitarra, estou visitando os HQs que contam as histórias desse personagem fantástico também chamado de Morpheus ou Dream.

Claro que você notou a referência ao nome do blog, né? E eu sei que tem algumas pessoas que sabem de onde o nome realmente veio também. Pois é. Mas todo esse lance de influência e inspiração me fez pensar porque ando escrevendo pouco por aqui. Ocupado? Sinceramente, quem dentre nós não gasta uma meia horinha para falar da vida alheia ou de coisas que não acrescentam nada à nossa própria? Também sou culpado disso, portanto, deveria estar por aqui escrevendo.

E o que tudo isso tem a ver com o Sandman? Tem a ver com os sonhos. Tem a ver com o tempo que aplicamos a eles e com os resultados que esperamos que sejam obtidos. Tem a ver com limpar a areiazinha dos olhos pela manhã para enxergarmos a realidade do dia e passarmos por ele da melhor maneira que pudermos, até que possamos voltar novamente aos sonhos da noite.

Da mesma forma como sou influenciado por artistas e personagens, também o sou por pessoas que fazem o melhor com suas vidas, independentemente da área de atuação. Aquela pessoa que parece não perder seu tempo com algumas bobagens que eu perco, parece não se desviar das coisas como a maioria das pessoas se desvia. Tem dias em que as coisas parecem bem organizadas e em outros, nem tanto.

E tem tantas coisas que aprendo com elas! E tantas coisas que ando aprendendo com o mestre Neil Gaiman, ou com seu ‘alter-ego’, The Sandman. Algumas coisas interessantes estão nos parágrafos seguintes. Não coloquei na ordem cronológica, mas…numa ordem que faz algum sentido.

The Sandman

“It means that we’re just dolls. We don’t have a clue what’s really going down, we just kid ourselves that we’re in control of our lives while a paper’s thickness away things that would drive us mad if we thought about them for too long play with us, and move us around from room to room, and put us away at night when they’re tired, or bored.” – Rose Walker

What power would hell have if those imprisoned here would not be able to dream of heaven?” – Dream, a Lucifer e os cidadãos do inferno

“I’m not blessed, or merciful. I’m just me. I’ve got a job to do, and I do it. Listen: even as we’re talking, I’m there for old and young, innocent and guilty, those who die together and those who die alone. I’m in cars and boats and planes; in hospitals and forests and abbatoirs. For some folks death is a release, and for others death is an abomination, a terrible thing. But in the end, I’m there for all of them.” – Death

“- I am anti-life, the beast of judgement. I am the dark at the end of everything. The end of universes, gods, worlds… of everything. And what will you be then, Dreamlord?
I am hope.”
– Choronzon e Dream

“People think dreams aren’t real just because they aren’t made of matter, of particles. Dreams are real. But they are made of viewpoints, of images, of memories and puns and lost hopes.” – John Dee

“To emulate flesh machines I am learning.”
Warrel Dane

Moe.
[Atomic Lab]

Pensando em Negócios

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Sempre que alguém quer me engajar numa discussão longa, é só começar a falar sobre música e dinheiro. Junta meu assunto favorito a uma necessidade básica de todos nós…e a coisa pega fogo!

Tio Patinhas - Uncle Scrooge

Nas minhas costumeiras leituras sobre music business, me deparei com o assunto da obtenção do sustento vindo da música. Já discuti isso incontáveis vezes com mais pessoas do que consigo me lembrar. Mas é incrível como, até hoje, nenhuma delas conseguiu derrubar meu argumento mais básico: se você faz um trabalho, você é pago, não? Então, por que diabos você espera que eu trabalhe de graça???

Se você achar que não tenho razão, tem um botão escrito “comentar” em algum lugar no final desse post. Manda ver!

Aí, um qualificadíssimo professor universitário, profissional da música, me contou sobre uma garota que queria ingressar num curso de music business. Ele perguntou, “e você, compra muita música?”, ela disse, “na verdade não, eu assisto aos vídeos no YouTube e faço download dos mp3”. !!! O comentário que ele fez para mim: “esta é uma pessoa que está considerando a música como carreira…de onde ela pensa que vem o dinheiro???”.

Vamos lá, agora me apedreje e diga: vem dos shows!!!

Tio Patinhas - Uncle Scrooge

Aí fico pensando…exatamente agora, começou a tocar Imagine, do John Lennon, na rádio que estou ouvindo. Isso me remeteu aos Beatles, que por sua vez remeteram aos rumores dos shows do Paul McCartney no Brasil, ainda não confirmados. Porque estou dizendo isso? Simplesmente porque eu NUNCA pude assistir a um show de nenhum dos dois, muito menos dos Beatles que eu gosto tanto. Ou seja…se dependesse de mim, com o pensamento do parágrafo anterior…eles teriam morrido de fome??? Porque FAMA não paga contas, DINHEIRO é o que paga.

Agora, claro que tem muita gente que não encara música como trabalho, que acha que músico é desocupado, vagabundo, no máximo um hobbysta excêntrico – e claro que tem “músicos” que contribuem com o pensamento. Conselho meu para essas pessoas: tente tocar um instrumento, tente cantar, tente compor uma música, tente fazer disso um negócio. Quem sabe assim você perceba o TRABALHO que dá. Se não perceber, parabéns! Ou você se contenta com muito pouco ou realmente não tem idéia do que está fazendo.

Claro, existe o outro lado: quem ama música, mas isso realmente está fora do seu poder aquisitivo. Boas notícias: os tempos estão mudando e a tirania de pagar caro por CDs está acabando. Hoje, você não precisa mais comprar um CD caríssimo só por causa de UMA música que gosta, você pode comprar só essa. Você pode ouvir em serviços gratuitos de rádio na internet, que não necessariamente geram dinheiro ao artista mas também não permitem que você tenha posse de algo que não lhe pertence. Você desfruta da música, o artista faz sua divulgação, e quando estiver ao seu alcance, você compra a música. Daí, o artista usa o seu dinheiro para fazer mais música e o ciclo recomeça.

Pense bem antes de interromper esse ciclo. Você pode estar matando seu artista favorito. Costumo dizer que tudo (inclusive amor e ódio) funciona bem na base da reciprocidade: vai daqui se for daí! Se você pensar somente em receber sem dar nada em troca, uma hora você não vai mais ter de onde receber (alguma semelhança com as crises ambientais no planeta todo???). Vou torcer para que isso não aconteça.

“That ain’t working, that’s the way you do it. Get your money for nothing and the chicks for free.”
Mark Knopfler

Moe.
[Atomic Lab]

A Escala da sua cabeça

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MEU! Musicalmente, é um dos melhores vídeos que já vi! Comprova nitidamente que a música é intrínseca à existência humana. Vai ganhar post no blog??? AH, VAI SIM.” Foi assim que respondi um e-mail do meu amigo Gusta com um link para um vídeo muito interessante.

Vou resumir a história, já que estou linkando o vídeo. O Bobby McFerrin (isso, aquele mesmo de Don’t Worry, Be Happy e que ganhou dez prêmios no Grammy) demonstrou em um festival de ciências a percepção das pessoas, gesticulando e pulando no palco. Primeiro, ele marcou uma nota em um lugar que ele pulava. Depois, marcou uma mais aguda e, a partir do terceiro lugar que ele pulou, todas as pessoas começaram a cantar as mesmas notas, a platéia toda! Exatamente como se ele estivesse pulando nas teclas de um piano gigante.

Beleza. Todo mundo cantando junto, que bonito. O problema é: como as pessoas sabiam a nota que deveria ser cantada??? Acabou sendo montada a escala pentatônica com as vozes das pessoas – que basicamente consiste em uma escala de cinco notas, geralmente derivada de outra escala. A escala mais comum, a maior, tem sete notas diferentes e, tirando duas, você obtém a pentatônica.

Eu não tenho a mínima formação em medicina, mas eu acredito que isso remeta à genética. Herança genética, para ser mais exato. Faz tempo que existem os padrões musicais, as coisas consideradas “bonitas” e “certas”, que podem não ser as únicas a agradar ao ouvinte, vide meus artigos falando sobre bandas de sonoridade caótica. Mas, o que penso é que o considerado bonito e certo é na verdade o previsível. Sabe quando entra aquele refrão que você decora de primeira? Aquela passagem “grudenta”? Isso é obtido dado ao grau de previsibilidade da passagem, unido à interpretação do artista e apoiado pela sua herança genética de várias gerações achando aquilo bonito. Daí se montam as relações matemáticas entre as notas na formação de escalas e tudo mais. Daí se explica porque a música pop é pop e porque outras são esquisitas e difíceis de ouvir.

É interessante também como isso assume caráter regional. Por exemplo, o Angra, que toca essencialmente heavy metal, costuma misturar elementos de música brasileira a esse estilo, resultando em acentuações diferentes nos ritmos, percussões não muito usadas para esse tipo de música. Para nós, brasileiros, isso não tem o mesmo impacto que para os japoneses (que adoram o Angra, por sinal). Aqui, a gente já tem um pouco disso na cabeça e a surpresa se dá mais pela mistura do que pelo elemento em si, ao passo que no Japão, esse tipo de coisa brasileira não existe. E os caras ouvem o heavy metal com swing brasileiro e pensam, “que diabos o cara tá fazendo?”, e é “só” uma acentuação de baião com guitarra distorcida.

Tudo me leva a crer que precisamos tomar cuidado com o que preservamos para deixar de herança. Senão, é possível que, em algumas gerações, a beleza musical tome um caráter bem diferente. E possivelmente não tão bonito.

“Just use your head and in the end you’ll find your inspiration”
Axl Rose

Moe.
[Atomic Lab]

Eu descansaria no sétimo dia

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Certa vez li que o que somos como músicos é um reflexo do que somos como pessoas. Isso é bem verdade. Não enxergo uma pessoa desleixada sendo um músico perfeccionista. Claro que isso também acontece comigo, então acabo sendo um músico perfeccionista, metódico, extremamente crítico – especialmente comigo mesmo. Por isso, há poucas obras que eu admiro a ponto de colocar no patamar de uma “obra que eu gostaria de ter escrito”. Mas, com certeza esse é o caso de Empire, do Queensrÿche.

Queensrÿche - Empire Era

Antes que achem que estou sendo só fanático (talvez um pouco, mas não é só isso), devo dizer que quem conhece um pouco o mercado musical – seja o antigo, o novo ou tudo que está acontecendo entre um molde e outro – sabe que é extremamente difícil emplacar grandes sucessos no gênero do metal progressivo. E esta é uma banda que conseguiu atingir até quem nem sabe que existe um estilo chamado heavy metal progressivo, ao menos com uma música, e sem destoar do resto do seu trabalho, ou seja, sem tornar-se mais uma one-hit wonder.

Esse disco contou com a formação clássica da banda, Geoff Tate no vocal, Chris deGarmo e Michael Wilton nas guitarras, Eddie Jackson no baixo e Scott Rockenfield na bateria. Tive a felicidade de ver essa formação ao vivo, em novembro de 1997, pouco antes da saída de Chris deGarmo, que foi ser piloto de aviação comercial, após construir uma carreira bem sucedida na música. Vai entender. O pior é que ele era um dos principais compositores, ao lado de Tate, e foi das idéias dele que partiu a maior parte desse disco, que teve cinco video clips gravados e lançados como single, e a música que você provavelmente conhece é Silent Lucidity, que contou com a ajuda de Michael Kamen para os arranjos de orquestra. Tocou em rádios brasileiras até não dar mais. E foi assim que você acabou gostando de uma música que é de uma banda que você nem sabe que existe.

É também fato que esse foi um dos álbuns que eu mais escutei na vida, ao lado de Images And Words, do Dream Theater. E foi justamente o Queensrÿche, junto com o Fates Warning, que pavimentou o caminho para bandas como Symphony X e o próprio Dream Theater com o início do que veio a ser chamado heavy metal progressivo. No início, diziam que o Queensrÿche era uma mistura igualitária de Rush e Iron Maiden. Bem verdade. Com o tempo, o lado progressivo foi aparecendo mais, até chegar ao Empire. Após este, a banda foi tomando outro direcionamento, também bom, mas esse, para mim, foi o apogeu. O mais curioso é que a banda é de Seattle, terra do grunge e outras coisas mais, que nada tem a ver com eles.

Claro que estou ouvindo o CD enquanto escrevo, e agora toca a faixa título, Empire, que aborda temas como formação de gangues de rua e proliferação de drogas, que, mesmo tendo sido composta no início dos anos noventa, continua atual, infelizmente. Mas há também outras mensagens mais introspectivas, como em Best I Can. Ótimas baladas como Jet City Woman, que não exagera no fator radiofônico e mesmo assim foi um dos maiores hits do disco. One And Only e Hand On Heart também tratam de relacionamentos bem como a belíssima Another Rainy Night (Without You). A mais progressiva Anybody Listening? tem uma atmosfera muito interessante e também trata aspectos humanos de um jeito bem poético, assim como Della Brown, só que esta é mais diretamente sobre uma pessoa, menos generalizada. E não posso deixar de citar The Thin Line, que é uma das minhas favoritas, inclusive pelo ótimo trabalho de vocal, e Resistance, que é mais enérgica e mostra bem os ótimos timbres das guitarras – que permeiam todo o disco.

Procurei anos por essa versão do cd que tenho, com três faixas bônus: a maravilhosa Dirty Lil’ Secret, que tem uma vibe meio blues, um pouco diferente do que eles costumavam fazer, mas casando bem com o resto, Last Time In Paris, que foi composta para o filme The Adventures Of Ford Fairlane e a perfeita interpretação de Scarborough Fair, que é uma música de autoria desconhecida, mas que ficou bem famosa na versão de Simon & Garfunkel, que são creditados no disco. Nesta, o alcance vocal de Tate é colocado em pleno serviço da música e mostra que o cara realmente é um vocalista bem diferenciado.

Vou parar por aqui, porque eu poderia ficar dias escrevendo sobre esse disco e essa banda. O que posso dizer é que é certamente uma das minhas maiores influências, especialmente o Chris deGarmo, sempre colocando todo o potencial a favor da música e conseguindo resultados que muitas pessoas que tem mais recursos não conseguem. É um disco que eu gostaria de ter escrito, tocado, criado. E, sem a intenção de cometer nenhuma heresia, se tivesse sido esse o caso, eu ficaria sossegado para descansar no sétimo dia.

“Long ago there was a dream, had to make a choice or two
Leaving all I loved behind for what nobody knew
Stepped out on the stage alive, under lights and judging eyes
Now the applause has died and I can dream again”
Chris deGarmo

Moe.

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