Sonhos lúcidos com uma trilha sonora incrível…
Artigo
E quem disse que ia ser fácil?
17/12/08
Na minha opinião, a resposta é tão simples que chega a ser sarcástica: porque o trabalho não foi meu! Então, isso facilita para olhar de longe e dizer, “ah, se eu fosse o artista X, minha carreira seria fácil, porque o mercado me receberia bem”, ou algo do tipo. Foi o que li hoje numa revista. A matéria comentava as carreiras de guitarristas chamados “virtuosos”, dizendo que se você tivesse o sobrenome Vai, Malmsteen ou Satriani, sua carreira seria mais fácil.

G3 – Joe Satriani, Steve Vai, Yngwie Malmsteen
Eu vejo duas maneiras de interpretar essa colocação. Primeira: se você fosse um dos três, nos dias atuais, sua carreira já estaria estabelecida, com as deles estão. Segunda: a grama do vizinho sempre é mais verde, ou, a guitarra (troque por algo condizente com sua carreira) do vizinho sempre faz mais sucesso que a sua. A primeira, tudo bem, apesar de não estarem no topo de charts da Billboard, os três vivem do que fazem e são felizes com isso. Agora, sobre a segunda…será que é verdade???
Claro que se pensamos que a grama do vizinho é mais verde, pensamos também que a chuva favorece mais sua verdinha que a nossa. E, em diversos casos, não poderíamos estar mais enganados. Volto no que eu disse no começo: não fui eu quem teve a trabalheira toda, então, fica cômodo pensar que foi fácil, não fica? Sobre as carreiras deles, primeiro devo dizer que os três estão muito acima do que se encontra em guitarristas, com relação à técnica e em diversos outros aspectos. Mas, a pedra nasce bruta.
O Yngwie Malmsteen já disse diversas vezes que chegou a estudar DOZE HORAS por dia e foi da Suécia para os Estados Unidos com mais ou menos 18 anos para tentar a sorte. Inovou a abordagem da guitarra com influência da música clássica. O Steve Vai conseguiu seu primeiro trabalho famoso escrevendo a partitura de uma música do Frank Zappa (Black Page, para os curiosos) e mandando para o cara, que imediatamente contratou o Vai para transcrever seu material e descobriu que ele também era um ótimo guitarrista. Vai entrou na banda do Zappa, que o chamava de “Italian Virtuoso”. Depois que o Vai fez sucesso, ele apontou para um cara, até então desconhecido, que tinha sido o professor dele! Claro que os guitarristas, que são os maiores consumidores desse tipo de música, ficaram curiosos sobre quem era o tal de Joe Satriani que ele tinha falado e viram o talento do cara também.
Todo esse papo me enche de vontade de trabalhar cada vez mais! E o motivo é simples: tenho alguns amigos que podem falar bem de mim – e falam. Mas, e se quando o pessoal tivesse ido ver o trabalho do Satriani eles não encontrassem bons resultados?
“I wanna be a busy man. I wanna see a change in the future. I’m gonna make the best of what I have.” Chris DeGarmo
Como explodir uma banda de rock
15/12/08
Bom, o que aconteceu foi o seguinte: era uma vez alguns rapazes que estavam no começo de uma ótima carreira musical, um baixista chamado Kip Winger e um tecladista e guitarrista chamado Paul Taylor, que haviam feito parte da banda de ninguém menos que Alice Cooper, que se uniram a um baterista que havia tocado no Dixie Dregs, Rod Morgenstein, e um guitarrista de estúdio mais “iniciante” chamado Reb Beach. A comando do baixista e agora vocalista principal, chamaram a banda de Winger. E gravaram seu primeiro disco, Winger (Sahara), que se você ouvir sem saber que é um álbum, pode pensar que é uma coletânea da banda, tamanha a quantidade de músicas que emplacaram na época e tamanha a qualidade do material. Após este, gravaram seu segundo álbum, In The Heart Of The Young, que teve um hit de sucesso absurdo, chamado Miles Away, que inclusive foi parar na propaganda do Hollywood, que marcou a época com seus comerciais recheados de músicas de bandas de rock, que eu lembro com saudades até hoje – apesar de não ser fumante…risos.
Após esse álbum e a turnê de shows lotados, ocorreu um evento nada musical, que é justamente a receita do dia. Foi criado pela MTV um desenho que eu mesmo gostava de ver, Beavis & Butthead, que era bem engraçado e abriu caminho para o South Park e afins. Os dois protagonistas usavam camisetas de bandas de rock, como Metallica e AC/DC. Claro que como todo desenho juvenil, tinha o personagem do nerd, que era o alvo favorito dos dois, um carinha chamado Stewart, que também usava uma camiseta de banda. Advinha qual era a banda!!! Você pode pensar, ah, cara, deixa disso, você tá falando bobagem! Mas não estou. Li em uma entrevista com Reb Beach que, de repente, as rádios pararam de tocar as músicas da banda e as vendagens caíram. Quando perceberam, a imagem da banda estava associada a um cara enfadonho, vítima dos mais espertinhos e possuidor de outros adjetivos menos atraentes. Algum tempo depois, foi a vez do Metallica dar sua espetadinha, com o video-clip de Nothing Else Matters, que mostrava o baterista Lars Ulrich jogando dardos em um poster do Kip Winger. Ou seja, uma banda de heavy metal fazendo uma balada que a maioria de seus fãs antigos odiaram (eu particularmente adoro o Black Album, independentemente disso) e desqualificando uma banda de hard rock que era famosa pela qualidade de suas baladas…tsc, tsc.

Daí eu volto naquela pergunta fatídica: até que ponto somos influenciados pelo que as outras pessoas pensam a nosso respeito? Até que ponto é bacana ser “da modinha” para que ninguém discorde das suas opiniões e gostos pessoais? Pegando o exemplo do desenho, tinha um cara sendo discriminado porque o resto dos caras eram um conjunto só. Se houvessem muito mais conjuntos de pessoas, ou seja, se a “cultura” mundial não fosse tão massificada, será que não seria mais difícil discriminar pessoas? Será que não haveria um diversidade artística muito maior? Será que a mídia não seria menos manipuladora? Será que não evoluiríamos mais?
Talvez você não saiba o que houve com o Winger, então vou te falar…logo na época desse evento que eu narrei, eles lançaram outro álbum, com a mesma qualidade dos primeiros, chamado Pull, já sem o Paul Taylor, compositor da famosa Miles Away. Depois disso, a banda tornou-se comercialmente inviável, então os membros seguiram suas carreiras, lançaram discos solo, e Reb Beach tocou em bandas como Dokken, gravando o ótimo álbum Erase The Slate, e depois no Whitesnake, onde ainda permanece e eu tive o privilégio de vê-lo tocando com a banda no Brasil. Em 2006, a banda retomou as atividades, gravando o disco Winger IV e fazendo diversos shows. Até onde eu sei, ainda estão em atividade. E na música em que cantavam “She’s only seventeen…”, agora cantam “She’s only thirty-five…”. É, o tempo passa. E os modismos, também!
“Who’s the one who claimed my liberty, robbed my soul of freedom? And how long must I put up with the unholy sound of your gun?”
Kip Winger
